Decisivo no 2º turno, Nordeste pouco aparece nos planos de governo de Bolsonaro e Haddad

No 1º turno, Haddad foi o mais votado em todos os estados do Nordeste, com exceção do Ceará, onde Ciro Gomes teve maioria  / Foto: Tatiana Fontes/O Povo e Ricardo Stuckert/Divulgação


O Nordeste quase não é citado nos programas de governo dos presidenciáveis Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), embora os votos da Região tenham sido decisivos para levar o País ao segundo turno da eleição, no próximo dia 28. No programa do petista, o nome da região só aparece uma vez, citado no Plano Nacional de Homicídios, mostrando que a violência é grande em algumas capitais nordestinas. No plano de Bolsonaro, algumas capitais nordestinas também são citadas no contexto de altos índices de assassinatos, e o nome Nordeste aparece quatro vezes, num mesmo parágrafo, se referindo a uma nova matriz de energia limpa e renovável, que terá como matéria-prima os ventos e o sol. A proposta não é novidade, tendo em vista que os ventos já são responsáveis por quase 50% da energia consumida nos Estados nordestinos e há pelo menos metade de uma década os consultores do setor falam que haverá uma expansão desses dois tipos de energia.
A região tem 28% da população brasileira e é responsável por 14% de todo o Produto Interno Bruto (PIB) do País. O PIB indica as riquezas produzidas num determinado lugar. “Essa proporção vem se mantendo há cerca de 50 anos. Houve avanços no País e na região em números absolutos, porque ambos cresceram”, comenta o sócio-diretor da consultoria Ceplan e economista Jorge Jatobá. “As pessoas do Nordeste continuam com 50% da renda per capita média das do Sudeste”, argumenta. A renda domiciliar per capita média do País ficou em R$ 1.268 em 2017, sendo R$ 1.712 em São Paulo; R$ 597 no Maranhão; e R$ 852 em Pernambuco, segundo informações da PNAD Contínua elaborada pelo IBGE. Esse cálculo soma os rendimentos recebidos por moradores de uma residência e divide o valor pelo total de habitantes do domicílio.
Para Jatobá, essas diferenças regionais só diminuem com políticas públicas e instrumentos para fazer as mesmas saírem do papel. O desenvolvimento regional é citado somente no programa de Haddad, que diz ser fundamental a elaboração de uma Nova Política Nacional de Desenvolvimento Regional e Territorial (PNDR). Mas descreve algumas iniciativas que podem ser adotadas sem identificar propriamente os locais e de onde virão os recursos a serem empregados.
Ainda no programa petista, há a intenção de concluir a transposição de águas do Rio São Francisco, um projeto que consiste na construção de dois grandes canais: os Eixos Norte e o Leste, que vão abastecer cidades de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.
O Eixo Leste está pronto desde março do ano passado, enquanto o Eixo Norte ainda está inconcluso. Em construção há 11 anos, esse projeto é muito importante porque vai dar segurança hídrica para 390 municípios do Nordeste.

O plano de governo de Haddad também diz que serão “retomadas as ações de revitalização do Velho Chico e repactuados com os Estados beneficiados”. Isso significa que será feita a cobrança da água aos Estados. Também está previsto, no programa petista, a implantação de um saneamento básico na bacia do São Francisco, sem explicar propriamente onde. A área da bacia abrange 634 mil quilômetros quadrados. O rio começa na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e vai até a divisa de Alagoas e Sergipe.
Os programas de governo dos dois candidatos, consultados pela reportagem do JC, são públicos e foram registrados pelo PT e PSL no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). As assessorias de imprensa de Haddad e Bolsonaro foram acionadas, mas não responderam à reportagem até o fechamento desta edição.

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